“Sonho
com minha admissão na Academia Sergipana de Letras ”, alguém disse afirmando
seu desejo, sua pretensão, sua doce ilusão de se tornar “imortal”, talvez reconhecido no mundo das letras, ombreando-se com
beletristas, poetas e romancistas, contistas e cronistas, professores e
doutores que ali se encontram, refestelados na glória mui passageira de ocupar
uma cadeira que pertenceu a um glorioso imortal (que morreu, vejam só!), de
participar de reuniões com cafezinho, biscoitinhos sem açúcar (a maioria já tem
problemas de ingestão do doce veneno), e naturalmente, bate-papo sobre o tempo
que se foi, nomes, eventos, datas que não voltam mais. É a “imortalidde”, quem diria.
Academia
Brasileira de Letras, criação do escritor (vamos respeitar, esse sim, um
verdadeiro escritor) Machado de Assis, reúne um bando de “imortais”, que dia sim e outro também morrem de velhice, de
doenças, do natural cansaço de viver, pois não há eternidade real (graças a
Deus!) para os que almejam a glória passageira caracterizada por honrarias
materiais, medalhas e estátuas, nomes de rua ou de praça, quem sabe de algum
colégio ou museu. Mas, justiça seja feita, lá estão alguns dos melhores
escritores do Brasil, e não serão as presenças de Getulio Vargas ou Aurélio
Lyra Tavares (mais conhecido como “Adelita”), ou mesmo o corrupto presidente do
Senado, que mostrarão ser aquele sodalício um reduto de cabeças não pensantes.
Que
tal Rachel de Queiroz, ou Graciliano Ramos, ou Guimarães Rosa, Euclides da
Cunha ou Raimundo Magalhães, Nélida Piñonou o próprio Machado de Assis, quem sabe Olavo Bilac, Jorge Amado e
outros nomes fulgurantes nas letras brasileiras, buscando a imortalidade (epa!)
através do uso de um fardão ultrapassado, de vivenciar reuniões de idosos (digamos,
grupo da terceira idade), de bebericar chá com biscoitinho de goma? Sim, assim
é, mas lá estão escritores de obra densa, respeitável, consistente, de muitas
produções e participações na vida cultural, literária especialmente, de nosso
querido Brasil. Palestras, artigos, conferências, livros editados no Brasil e
no exterior, tudo a marcar esses “imortais”,
a conferir-lhes credenciais para o panteão simbolizado na Academia
Brasileira de Letras.
Mas,
nós, pobres mortais de Aracaju, a bela capital de Sergipe, como poderemos
entender a busca pela “imortalidade” na
nossa Academia Sergipana de Letras daqueles que, honestamente é verdade, tão
pouco produziram literariamente; como admitir nessa Academia o autor de um
livro (não é o caso, por exemplo, de um livro como Os Sertões, que vale por dez outros); como pretender se “imortalizar” quem produziu apenas uns
artigos para jornais e revistas, ou notícias para televisão e rádio; ou quem,
exercendo a cátedra, ministrou aulas de qualquer disciplina; ou um Advogado que
apresentou muitas petições (e louváveis, até) no fórum, exercendo sua
profissão? A bagagem para ingresso na Academia Sergipana de Letras deverá ser
consistente, não apenas em quantidade, mas especialmente em qualidade. E, por
favor, não me apresentem livros,numerosos e com capas bonitas, que repetem o mesmo conteúdo, sem maior
expressão de criatividade e imaginação literária.
Lembro
Maria Thetis Nunes. Como não enxergar nessa mulher uma escritora, a alma
consagrada ao mister literário, a vida dedicada à causa da cultura na
universidade, no Instituto Histórico de Sergipe, nos escritos criados desde
seus melhores tempos, os quais não são apenas numerosos, mas de qualidade? Ela
merece, sem dúvida, participar da Academia Sergipana de Letras. Não conheço
muito os demais membros, mas lembroCabral Machado, que não estaria na Academia por pouca coisa. Sobretudo,
lembro-me de Manoel Bomfim, o sergipano ainda não consagrado: ele estaria bem
na Academia ao lado dos seus mais representativos associados. E Silvio Romero,
e Hermes Fontes, e Tobias Barreto. Todavia, não entendemos como o escritor de
um livro, ou de artigos que passaram a integrar uma coletânea, ficam a buscar “imortalidade” como se apenas com o
ingresso na Academia Sergipana de Letras fossem reconhecidos escritor, poeta,
ensaísta ou teatrólogo. Vaidade, digo que é mais vaidade do que a busca pelo
reconhecimento da obra que, supõe-se, construiu ao longo do tempo.
Respeito
o anseio dos que buscam a “imortalidade” através
do ingresso em uma academia literária. Compreendo o desejo de se ver endeusado.
Imagino a intimidade dos candidatos a uma cadeira acadêmica. Quero captar o que
realmente vai pela mente dessa pessoa que se expõe a uma votação
simbólica que não enobrece, não a torna melhor ou pior na vida literária, que
muitas vezes capta votos pedindo, telefonando, agradando (na Academia
Brasileira de Letras é assim). Será o real desejo da “imortalidade” ou forma de exibição perante seus contemporâneos?
De
qualquer forma, é certo que a “imortalidade”
buscada com o ingresso numa academia de letrados é temporária, efêmera,
estritamente passageira. Ficar na memória das pessoas com outras qualificações
que não “imortal acadêmico” vale
muito mais do que a glória restrita de uma galeria de retratos, de nomes em
atas, de chás das cinco com sequilhos, do reconhecimento de vinte ou trinta em
detrimento de centenas ou milhares.